376 famílias são violentamente expulsas de comunidade em Fortaleza

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376 famílias são violentamente expulsas de comunidade em Fortaleza

Um cenário de guerra. Mulheres grávidas, crianças e trabalhadores desarmados contra 150 policiais da Tropa de Choque. Resultado: 376 famílias pobres violentamente despejadas de uma comunidade carente

Veja a seguir cenas do despejo forçado na manhã do dia 20 de fevereiro de 2014 na comunidade Alto da Paz, no bairro Vicente Pinzón, em Fortaleza. Cerca de 376 famílias ocupavam o terreno desde setembro de 2012. Após uma série de negociações frustradas com a Prefeitura (proprietária do terreno), a ordem judicial de despejo foi cumprida com a presença de 150 homens do Batalhão de Choque

Grávida agredida

Juliane Queiroz da Silva, 20, moradora da Comunidade Alto da Paz foi surpreendida pela chegada da polícia em seu barraco. Grávida de 8 meses, Juliane recebeu um chute de um policial.

despejo comunidade fortaleza
Girlane da Silva (dir.), grávida de 8 meses, foi agredida em despejo (Reprodução)

Sua mãe, Ana Célia, ao chegar no local, encontrou sua filha gritando de dor com a marca do coturno em sua barriga. A grávida foi imediatamente levada para a ambulância que estava no local.

“Disseram pra gente que era uma varrição na praia. Isso aqui tá errado. Se soubesse não teria vindo”

Vestidos de uniforme laranja, vários dos garis da Prefeitura escalados para o despejo pareciam desconfortáveis, enquanto ajudavam os moradores do Alto da Paz a retirarem seus pertences de casa. Não era só o calor, os estampidos de bala aqui e ali, a gritaria. Quando subiram na caçamba de um caminhão (“Viemos igual cachorro, no meio do entulho, de cheiro de merda…“) rumo ao Vicente Pinzón, não sabiam qual serviço lhes esperava.

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Um disse pensar que iriam capinar o meio fio da avenida Dioguinho. Outro chegou furtivo e disse nos nossos ouvidos: “Disseram pra gente que era uma varrição na praia. Isso aqui tá errado. Se soubesse, não tinha vindo.” Todos com quem falamos moram em bairros periféricos de Fortaleza (Bonsucesso, Bom Jardim, José Walter), ganham um salário mínimo e pagam aluguéis entre R$ 200 e 350. Nenhum disse morar numa ocupação.

“Lembrei agora da minha cama…”

O seu Francisco, de 70 anos, desceu a rua Ismael Pordeus arrastando no calçamento o assoalho metálico de seu carrinho de catar material reciclado. Desceu rápido como se já soubesse pra onde ir. Cruzou no caminho com uma formação da cavalaria que subia a ladeira rumo à entrada da comunidade. Estancou dois quarteirões depois da barreira policial para descansar um pouco.

Seu Francisco (Reprodução)
Seu Francisco (Reprodução)

Carregava sacolas com roupas, a televisão de 14 polegadas, um fogão, o bujão de gás, panelas e o que sobrou da despensa. “Não é pra levar, não?”, assustou-se quando chegamos pra entrevistá-lo. Desconfiou que não poderia se tirar nada da casa. Depois mostrou a marca na batata da perna do que deve ter sido uma bala de borracha. Natural de Canindé, chegou a Fortaleza em 1970. Morou a vida toda nas redondezas da Praia do Futuro, sustentando-se da coleta de sucata e material reciclado. Disse que voltaria agora para um quartinho alugado na PF. E quando ia retomar a marcha, espantou-se num pulo com as mãos na cabeça: “Ih! Olha! Lembrei agora da minha cama… A cama novinha… Será que dá pra buscar ainda?”