Industria da seca: Banco do Nordeste, Sudene e do governo federal.

Atropelador de Ribeirão Preto pede desculpas
14 de agosto de 2013
Após protestos secretário de Saúde de SP pede demissão
15 de agosto de 2013

Industria da seca: Banco do Nordeste, Sudene e do governo federal.

A indústria de seca sempre esteve presente no Nordeste, especialmente na Bahia. Envolvia recursos desviados do Banco do Nordeste, Sudene e do governo federal. Os políticos transformavam o abastecimento de água, através de caminhões-pipas, em votos. Os cordéis nordestinos os criticavam na medida em que somente apareciam em época de campanha para pedir votos ou quando a seca maltratava o sertão. A expressão “indústria da seca” nos últimos anos caiu em desuso. Até porque muitos estados adotaram políticas contra a seca construindo açudes em épocas de normalidade. O Ceará é uma dessas unidades. Espalhou pelo seu semiárido inúmeras barragens tomando precaução contra as estiagens demoradas.
A situação que a Bahia no momento experimenta é aterrorizante, na medida em que não há previsão de chuvas e é possível que não aconteça ainda este ano. O semiárido baiano constitui 60% do território, mas tem como característica a diversidade. A pior área é do centro do Estado para o norte. Até aqui, segundo a Federação da Agricultura da Bahia, os criadores já perderam um milhão de cabeças de gado e grande parte dos municípios é abastecida por caminhões-pipas. Outra característica da região é que as habitações são esparsas, distanciando-se, às vezes, dos municípios onde fica a maior concentração dos sertanejos. As cisternas, construídas nos casebres esparsos, não funcionam em época de seca porque não é, naturalmente, possível captar água através das bicas, na medida em que não chove.

seca

Enchentes reeditam ‘indústria da seca’

Duas situações opostas, mas que têm muito em comum quando se trata de ações de “solidariedade” e de aproveitamento político. Tanto nas enchentes quanto nas secas, uma massa de flagelados fica à mercê do poder público ou de qualquer ajuda. A espera por alimentos e a escassez de água potável tornam a calamidade um prato cheio para quem pretende posar de herói. Mas a estratégia nem sempre atinge o objetivo central: o voto.

Para a professora da pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Rejane Vasconcelosde Carvalho, os fatos relatados ontem pelo O POVO – que foram mostrou exemplos de aproveitamento político das enchentes no Ceará – são uma reedição de padrões de clientelismo muito fortes na cultura política do Estado, que permanecem até os dias atuais. “O que fica difícil de delimitar hoje são os intermediadores. Antes, eram os grandes proprietários de terras. Agora, não. Há uma variedade muito grande”, disse a pesquisadora, membro do da coordenação do Laboratório de Estudos de Política, Eleições e Mídia (Lepem).

De acordo com Rejane, o clientelismo, alimentado pelas carências de emprego, alimento e políticas públicas, manifesta-se não apenas em períodos de tragédias, mas também no cotidiano. Mas, em períodos de calamidades, fica mais evidente. “Como há uma solidariedade, que recruta muitos recursos materiais, em cadeia, quem está na ponta, no contato com a população, é que atua como benfeitor. É uma forma de clientelismo diante do grande sofrimento”, explica.

Ainda conforme a acadêmica, a situação é distinta da que ocorre no período eleitoral, por não se tratar do pedido aberto de voto. Mesmo assim, destaca, cria-se um “vínculo de fidelidade”. Ela acredita que a situação tanto pode render “frutos” políticos, para quem quer se aproveitar, como causar indignação, à medida em que se observa que aquela doação não é um favor do poder público, mas uma obrigação.

Por isso, ela avalia que não é garantida a conversão dos “benefícios” em voto no futuro. “Depende de como isso vai ser utilizado no momento da eleição. A gente não pode pensar que o eleitor, mesmo o rural, é passivo. É um momento em que aparece o clientelismo, mas também o momento em que se torna mais visível a ineficiência do poder público”.

O jornalista e professor Francisco Souto Paulino, autor do livro Nordeste – poder e subdesenvolvimento sustentado – relembra a chamada “indústria da seca”, em que grandes proprietários de terras construíam açudes com recursos governamentais, mas permaneciam proprietários da terra e, em consequência, da água, por não serem indenizados. Historicamente, essa água era utilizada como moeda de troca eleitoral. Embora reconheça ser uma questão estrutural, ele acredita que os fatores estão se modificando, tanto pela legislação, quanto pela desconcentração de poder político. “Em outros momentos, há 15 anos, isso era mais acintoso, no sentido de que os políticos tinham mais poder para concentrar. Hoje está mais difícil porque o planejamento está diferente”, diz.

Fonte: O Povo