O que dizem (e pensam) os índios sobre as políticas de inclusão digital? As comunidades precisam de Internet?

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O que dizem (e pensam) os índios sobre as políticas de inclusão digital? As comunidades precisam de Internet?

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Maurício Ye’kuana, vindo da região de Auaris, na TI Yanomami, fronteira com a Venezuela (RR), é o responsável pela informática na Hutukara Associação Yanomami, sediada em Boa Vista, e pela atualização do site da associação. Ele contou: “Estou começando a aprender uma tecnologia que não é minha”. Como os outros, ele conheceu as dificuldades da aprendizagem, até poder usar e finalmente conseguir fazer a manutenção dos computadores. Maurício Ye’kuana aprendeu a informática em Boa Vista, onde trabalhou alguns anos numa oficina de conserto de computadores. Talvez por isso, preocupe-se tanto com a presença da internet em TIs – em especial terras como a sua, de difícil acesso: “Vai ter muita dificuldade essa internet nas terras indígenas”, apontou. Como ressaltou ele, os próprios militares na região têm dificuldades para manter o equipamento funcionando, e os índios, então?

Mas Maurício Ye’kuana, para além de enumerar os problemas, trouxe à tona um questionamento sobre as necessidades indígenas em relação às tecnologias. “A minha preocupação é uma: como será o futuro dosYanomami se instalar a internet? Somos considerados recém-contatados – não posso ainda levar a internet até lá. Não adianta você conhecer MSN, Orkut. Não vai ajudar na comunidade”, ponderou ele.

Essa dúvida foi retomada por um internauta, que enviou, durante uma das rodas de conversa, a seguinte pergunta aos participantes indígenas: a internet favorece ou não a vida comunitária?

Em resposta, o Guarani Lucas Benite ressaltou que, para favorecer a vida comunitária, é preciso estar “espiritualmente também preparado para receber as ferramentas. É um aparelho pequeno, mas o mundo está dentro dele”. Segundo ele, a liderança do grupo precisa saber com qual objetivo usar essa tecnologia, porque “não é uma ferramenta, é uma arma”. Contou que muitas coisas já chegam na aldeia e “não servem mesmo para a comunidade”, como os videogames; mas não é o caso da internet: só é preciso saber usar e ter objetivos definidos. Pode ser útil para fazer pesquisa e, por exemplo, acessar aos relatórios de antropólogos que já estiveram na área.

Nesse sentido, ele criou um projeto de audiovisual dedicado à reflexão e pesquisa sobre a cultura guarani, que envolve pesquisadores indígenas com o apoio do Museu do Índio/Funai. Para ele, é preciso discutir em quais momentos, na comunidade, a internet pode ser efetivamente útil, e essa discussão deve envolver as lideranças mais velhas.

Jean Jaminawa, do Acre, respondeu dando ênfase ao papel que a rede vem representando nas relações interétnicas no Acre. No Vale do Juruá (AC), as comunidades em que foi instalada internet puderam aproveitar melhor as oportunidades oferecidas por essas relações na realização de projetos e melhorias, avaliou, apesar de terem enormes problemas com a instalação e o funcionamento das antenas. Segundo ele, alguns gruposkaxinawá e jaminawa descobriram que falavam a mesma língua após a instalação da internet na aldeia. “Isso fortaleceu nosso povo; todas as etnias do tronco linguístico pano”, notou.

Política e os projetos de inclusão digital

Um dos aspectos também marcantes nas discussões do Simpósio foi a relação entre comunicação e política.

As questões de liderança e organização política dos grupos mostraram ter uma incidência determinante no curso dos projetos de inclusão digital nas comunidades. Os casos são muitos e diversos, mas foi possível perceber uma linha de demarcação bastante clara entre a situação dos grupos em que chegada da internet se limitou a preencher a agenda externa dos parceiros de projetos e a situação dos grupos cujos atores políticos integraram a gestão dos meios de comunicação em um projeto político.

Em sentido inverso, os projetos de comunicação também incidem sobre a organização política dos grupos. Isto porque as posições de chefia ou liderança estão sendo questionadas e reavaliadas neste processo. Não raro, as questões colocadas pela chegada da internet na comunidade reconfiguram esses papeis.

O caso mais claro nesse sentido é o suruí paiter. A criação do Plano Suruí 50 Anos, um plano de sustentabilidade territorial que envolve na sua base um vasto projeto de comunicação com a sociedade não indígena, levou os Suruí Paiter a resgatar e a adaptar seu modelo político tradicional ao contexto atual, porque este era, segundo seu líder Almir Suruí, a única forma de organização capaz de garantir um consenso para as decisões envolvidas no plano. Neste “novo modelo tradicional”, eles criaram um cargo de líder maior do povo suruí, o labiway e saga, que é o representante dos Suruí perante a sociedade não-suruí e o responsável pela articulação da política com os atores externos. O labiway e saga é designado pelas lideranças tradicionais de cada aldeia , que continuam representando a autoridade legítima entre os Suruí. Essa foi a maneira como os Suruí adaptaram seu modelo político a uma situação em que têm de assumir coletivamente responsabilidades cada vez maiores, pela realização do Plano 50 Anos e o empoderamento de suas relações no plano externo.

Isso mostra que a articulação entre o uso da internet e as formas de organização social e política indígenas pode fortalecer essa organização e ao mesmo tempo atualizá-la. Nesse sentido, o uso dos meios de comunicação mostra ser um importante instrumento na atuação dos grupos sobre o próprio destino, na gestão e ampliação de suas relações com a sociedade não indígena. Política e comunicação aparecem mutuamente dependentes e se confundem em muitos aspectos, dando a entender porque a gestão dos meios de comunicação e especialmente da internet é um assunto polêmico para os grupos e tem bastante influência na sua organização.

Quando a tecnologia de comunicação se inscreve na visão política das lideranças como um meio renovado de produzir as práticas sociais e culturais do grupo, e não como um fator de ruptura dessas práticas, ela é apropriada. É justamente porque a ideia importante associada à tecnologia de comunicação é a de continuidade, que ela pode ser um instrumento de empoderamento para o grupo. O Simpósio demonstrou que a capacidade das lideranças indígenas em enxergar nessas ferramentas um projeto político e tomar para si sua utilização está em pleno crescimento. (Edição de relatos e informações colhidos no Io Simpósio Indígena sobre os Usos da Internet e do texto “Para que diabo os índios precisam da internet?”, de Nicodème de Renesse, agosto, 2011).