O Hacktivismo no Desenvolvimento da Internet

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O Hacktivismo no Desenvolvimento da Internet

É evidente a visibilidade que o fenômeno social denominado HACKTIVISMO vem ganhando nos últimos anos. Pudera. Só o Anonymous – “comunidade anônima” de ativistas que propaga a ideia da livre circulação de informação na internet – deu conta de disseminar essa prática de legalidade ambígua por todo o mundo. Em 2010, as atividades hacktivistas realizadas pelo Anonymous alcançaram o topo da agenda midiática internacional, devido aos ataques de negação de serviço que causaram às empresas que se recusavam a repassar doações ao Wikileaks. Hoje, o grupo se destaca em protestos por todo mundo, como líderes ciberativistas. Aqui no Brasil, inclusive, as frentes do Anonymous vêm tendo participação significativa na promoção das manifestações em diversas cidades. Sua ousadia em desafiar governos e grandes corporações, mesmo que com pequenas investidas hacker, ganhou – e vem ganhando – popularidade no globo e uma atenção toda especial da mídia. E não é somente sua vontade política que é tão atraente. Todo o sensacionalismo que cobre os principais símbolos representativos do Anonymous parece ser um prato cheio para a redação dos principais veículos mundiais. Em 2011, o grupo entrou para a lista dos 100 mais influentes do mundo da revista Time.

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O Anonymous teve origem em práticas hacktivistas e posteriormente foi se dissipando, ganhando adeptos e diversificando ações. Podemos constatar que o Anonymous nada mais é que um resultado – ainda em ocorrência – ou um reflexo, das possibilidades da internet na atualidade. O hacktivismo, que é um fenômeno quase tão antigo quanto a web, ao mesmo tempo em que resulta dessa estrutura que é a internet hoje, também contribui significativamente para a expansão e desenvolvimento da sua cultura.

Partimos do pressuposto que o hacktivismo é um ativismo online, ou ciberativismo, que herda a cultura hacker. Para o sociólogo Manuel Castells, a internet possui uma cultura e essa cultura é formada pela cultura dos seus produtores. Isto é, a cultura hacker ajudou a moldar a cultura da internet, pois os hackers são parte integrante fundamental no desenvolvimento da internet ao longo de toda sua existência. Essa cultura hacker consiste no conjunto de valores e convicções que se desenvolveu a partir das redes de programadores que interagiam online, colaborando conjuntamente em projetos autonomamente definidos de programação criativa. Esses valores de compartilhamento de informação e conhecimento livre são os mesmos que existem até hoje nas comunidades hacker e que vem se dissipando para a sociedade na rede.

Os hackers não criaram a internet. A internet foi criada por cientistas, militares, acadêmicos e pelo governo americano. Porém, a partir do momento em que a rede se fez disponível para a sociedade, programadores e outras pessoas que possuíam habilidades com computadores puderam interligar-se e trocar informações. À medida que aprendiam e inventavam novas tecnologias, compartilhavam este conhecimento com os outros e ao mesmo tempo expandiam a internet. Essa é a cultura hacker. Embora “colaborativo” pareça ser a palavra da atualidade, ela vem acompanhando a internet desde sua invenção, em 1969. Colaborar é um verbo que está enraizado na cultura da internet.

A título de esclarecimento, um hacker encontra soluções não convencionais e não triviais para problemas. Em informática, são pessoas com conhecimentos técnicos cuja paixão é inventar programas e desenvolver novas formas de processamento de informação. O desenvolvimento de sistemas operacionais, da web, de plataformas sociais e de softwares de conversação nada mais é que solução para problemas encontrados no mundo informático ao longo das últimas três décadas. Claro, de todo esse processo, não somente participaram os hackers, mas também as empresas (que, financeiramente falando, tornaram muito do que foi citado possível) e as pessoas (que são quem utiliza todas essas funcionalidades, compartilha informação entre si e constrói conhecimento coletivamente). Fica, de qualquer forma, indiscutível o reflexo da cultura hacker na cultura da internet e sua participação na expansão da mesma.

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Em 1996, o coletivo hacker The Cult Of The Dead Cow falou em hacktivismo pela primeira vez em uma troca de e-mails. O termo estava relacionado a “desenvolver softwares com os quais pessoas de outros países pudessem se comunicar com segurança, mesmo se o seu governo as estivesse espionando”. Já se via, mesmo nessa época, a preocupação com a defesa da livre circulação de informação por parte de alguns grupos hacker politizados. Em 1997, o grupo Electronic Disturbance Theater se destacou mundialmente por seus ataques a instituições associadas ao governo do México, que oprimia os povos indígenas na região de Chiapas. A internet teve papel essencial na disseminação internacional dos acontecimentos no México. Tomando conhecimento, o grupo conseguiu atingir instituições importantes o suficiente para obter a atenção da mídia e voltá-la para o movimento Zapatista. Foi o Eletronic Disturbance Theater que desenvolveu o programa FloodNet, que foi posteriormente disponibilizado online e utilizado em muitas manifestações similares.

O principal papel do hacktivismo é dar voz às causas que muitas vezes não conseguem visibilidade expressiva somente através de métodos de compartilhamento tradicionais. Isso porque ele se utiliza de formas transgressoras para agir. Se formos analisar os casos de grande repercussão de hacktivismo, a maioria dos ataques que ocorrem é ambiguamente legal e ilegal ou puramente ilegal. As investidas – que podem ir do sobrecarregamento de sites através do amplo número de visitas até a derrubada completa ou invasão de sistemas – são suficientes para desestabilizar de alguma forma a instituição atacada (sendo essa muitas vezes o governo ou uma organização envolvida em operações que divirjam do interesse público). Os objetivos finais das práticas hacktivistas estão geralmente relacionados com a obtenção de visibilidade e agendamento para a causa e prejuízo na imagem pública da entidade vítima.

O hacktivismo por si só já é suficiente para obter cobertura jornalística por certo tempo. Ele se coloca ao lado da população e demonstra poder desestabilizar instituições que ajam em desacordo com interesse público, através de conhecimentos táticos e técnicos. Bater de frente com entidades poderosas (o governo americano, empresas e instituições religiosas), embaraçando-as diante dos olhos do mundo, garantiu ao Anonymous (e outros grupos antes dele) destaque na mídia mundial. Porém o Anonymous foi mais fundo e se consolidou como movimento permanente, com milhões de adeptos e simpatizantes. Essa popularidade constante agregada pelo grupo conta com outros aspectos que vão além das práticas hacktivistas.

Já faz alguns anos que vivemos um momento propício para que emerjam grupos ciberativistas com presença mundial como o Anonymous. O desenvolvimento tecnológico e social vem nos permitindo isso. Ou seja, a ampla adesão às causas do Anonymous é um reflexo das possibilidades proporcionadas pela internet e também da provável insatisfação da população com seus governantes e com grandes corporações. Além disso, a utilização do anonimato, a colaboratividade nas ações, o sensacionalismo em seus comunicados e o caráter global do movimento são fatores que contribuíram para que o Anonymous chegasse, depois de 10 anos de existência, às proporções em que se encontra atualmente.

Não é exagero afirmar que um movimento como o Anonymous contribui para a expansão da internet e para a manutenção da liberdade dentro dela. O hacktivismo é a cultura hacker se impondo e se manifestando em favor de causas políticas e sociais, é a desobediência civil eletrônica cada vez mais legitimada. Por fim, é natural que uma comunidade apresente discrepâncias nas defesas das diferentes causas, como vemos com frequência no Anonymous. É como colocar milhares de pessoas, de todas as partes do mundo, de diferentes contextos sociais, sem hierarquia, para discutir sobre o que querem em um grande salão. O Anonymous parece estar nessa fase. O ciberativismo em geral parece estar nessa fase. Ao menos, já foi provado que esse grande salão de discussão funciona, desde 1969, principalmente em se tratando da construção de conhecimento coletivo.

Por: Laura Barros