Por trás das máscaras dos “ciberinsurgentes” do Anonymous

Google vai bloquear vídeo que causou detenção de seu diretor-geral
28 de setembro de 2012
Na caminhada de Giroto, jovens defendem ficha limpa na política e são agredidos
1 de outubro de 2012

Por trás das máscaras dos “ciberinsurgentes” do Anonymous

Uma matéria que saiu em alguns lugares sobre a Anonymous, veja:

A estação ferroviária de Spalding, em Linconlnshire (no leste da Inglaterra), não é grande. Encontrar a pessoa a quem procuro na plataforma requer apenas dois segundos: Jake Davis, ou Topiary, o hacker que em dado momento do ano passado foi alvo de uma das maiores caçadas policiais no planeta.

Por algum tempo em 2011, o LulzSec –grupo associado ao Anonymous, o coletivo “hacktivista” da internet que ganhou destaque quando do caso WikiLeaks– provocou caos na web. Suas ações variavam de transgressoras –derrubaram o site da Agência Central de Inteligência americana, a CIA, e invadiram os bancos de dados da Sony, divulgando nomes de usuário e senhas de mais de um milhão de pessoas– a absurdas: depois que a rede de TV educativa norte-americana PBS veiculou um documentário que criticava Julian Assange, o LulzSec invadiu seu site e substituiu a home page por um artigo sobre o rapper Tupac Shakur, morto há muitos anos, com a manchete “Tupac Está Vivo na Nova Zelândia”.

Durante os levantes da Primavera Árabe, o grupo invadiu e adulterou sites dos governos tunisiano e egípcio. Um hacker, Tflow (posteriormente identificado como um menino londrino de 16 anos) teria escrito um script que permitia aos ativistas contornar a vigilância do governo.

O LulzSec também invadiu o site da Agência de Crime Organizado Grave (Soca, na sigla em inglês), a divisão da polícia britânica que combate o crime organizado, e substitui a primeira página da versão on-line do jornal “The Sun” por uma “reportagem” de que Rupert Murdoch havia sido encontrado morto (com uma dica interessante no parágrafo final, segundo o qual o Serviço Federal de Investigações, o FBI, o teria encontrado em seu “famoso jardim de plantas ornamentais”.)

Por algum tempo, o LulzSec buscou e obteve a atenção do planeta. Os tweets do grupo conquistavam manchetes. Suas piadas eram retransmitidas por milhares de outros usuários do Twitter. E lá, à minha espera na estação ferroviária de Spalding, estava o guru de relações públicas do LulzSec.

“Procure o garoto branquelo que precisa de um barbeiro”, ele havia me instruído em uma mensagem de texto. E tinha razão. Trata-se de um garoto pálido a quem um corte de cabelo não faria mal. E absurdamente jovem, apenas 19 anos. Um adolescente magro com sotaque escocês suave que, por algumas semanas no ano passado, durante os “50 dias do LulzSec”, conseguiu escapar às atenções de agências policiais de diversos continentes.

Eu já sabia que cara tem Jake Davis, porque em julho do ano passado ele foi detido (aos 18 anos) em sua casa nas ilhas Shetland. Depois de ser acusado de cinco crimes relacionados a hacking e libertado sob fiança, ele saiu para a rua diante do tribunal de Westminster e o mundo todo pôde olhar para ele.

O Anonymous subitamente tinha rosto, e o rosto era o de um jovem furtivo, de cabelo ensebado, usando óculos escuros e carregando um exemplar do livro “Free Radicals: The Secret Anarchy of Science” (“radicais livres: a anarquia secreta da ciência”, em tradução livre).

O episódio ocupou as manchetes de sites de notícias de todo o mundo, porque foi seguido por uma série de detenções: Ryan Cleary, 19, de Essex; Tflow, 16, de Londres; Jeremy Hammond, 27, de Chicago; Ryan Ackroyd, 25, ex-soldado, de Doncaster; Darren Martyn (ou PwnSauce), 19, de Galway; e Donncha O’Cearrbhail (Palladium), 19, de Offaly, Irlanda. A detenção mais recente –duas semanas atrás– foi de outro norte-americano, Raynaldo Rivera, 20, no Arizona.

Em março deste ano surgiram informações sobre como as detenções aconteceram: o FBI obteve a cooperação de Hector Xavier Monsagur, 28, porto-riquenho radicado em Nova York, pai de dois filhos e membro do LulzSec, conhecido na rede como Sabu, e ele serviu como informante contra os colegas.

Foi como uma trama de “A Família Soprano”, mas em lugar de crime organizado e assassinos profissionais italianos, os envolvidos eram adolescentes que trabalhavam em seus computadores. E, talvez o mais confuso: a vasta maioria dos envolvidos parecia estar radicada no Reino Unido e na Irlanda.

Gabriella Coleman, professora de alfabetização científica e tecnológica na Universidade McGill, em Montreal, provavelmente sabe mais sobre o Anonymous do que qualquer outra pessoa no planeta. Ela estuda o movimento desde que surgiu como uma nova força política, em 2008, e diz que não é coincidência que tantas das detenções envolvam cidadãos britânicos ou irlandeses. O Anonymous é uma vasta nova força mundial, muito mal compreendida e engajada em “sacanear com a maior coordenação”, como definiu um dos contatos de Coleman. E seus seguidores são muitos no Reino Unido.

Nas salas de bate-papo onde o pessoal do Anonymous se reúne, Parmy Olson, jornalista da revista “Forbes” em Londres, constatou que a conexão britânica era gritante. Seu livro, “We Are Anonymous: Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency” (“Nós somos o Anonymous: por dentro do mundo hacker de LulzSec, Anonymous e da ciberinsurgência global”, em tradução livre), lançado em junho nos EUA, oferece percepções brilhantes sobre o mundo dos hacktivistas.

Quase por acidente, Olson rastreou o surgimento e o domínio do LulzSec, acompanhando os meandros da história enquanto acontecia. E ela diz que “era possível ver muita gente conversando sobre coisas britânicas, programas de TV britânicos, usando ortografia britânica. Era perceptível que se tratava de britânicos”.

Olson conheceu Jake Davis antes que ele voltasse a ser Jake Davis –ou seja, quando ele era Topiary–, e conversou com ele nas Shetlands. “Demorei um dia e meio para chegar lá”, ela conta. “E foi realmente embaraçoso. Ele era um dos hackers mais procurados do planeta, e parecia tão jovem”.

O MUNDO GIRA

Um ano é muito tempo, porém, quando você tem 18. Minha expectativa era a de encontrar um nerd socialmente desajeitado, mas Davis é um jovem de rosto franco, loquaz, que conversa olhando o interlocutor nos olhos e nada tem de nerd, ainda que isso talvez se deva ao fato de que está proibido de acessar a internet há mais de 12 meses. Ele se admitiu culpado por conspiração para uso indevido de computadores e retornará ao tribunal em abril de 2013.

Também está esperando para ver se será julgado por outra acusação: conspiração para cometer fraude (a promotoria ainda não determinou se um julgamento por essa acusação serviria o interesse público, por ele já ter admitido culpa pela primeira acusação). Davis está em liberdade mas tem seus movimentos controlados por um rastreador eletrônico, tem de voltar para casa antes das 22h e está morando com a mãe (que se mudou para Spalding pouco antes de sua detenção).

Ele não pode usar a internet para qualquer coisa que seja. Sua única forma de comunicação com o mundo externo é um celular que pareceria recente em 1995. E a maior surpresa –não só para mim, mas para ele– é que Davis não sente muita falta da internet.

“Na verdade me sinto mais confortável comigo mesmo. Minha vida era internet, e praticamente só. Conversar na internet e formar grupos de amigos. Eu não tinha vida fora essa. Um ano atrás eu caminhava de cabeça baixa, resmungando monossílabos.”

Foi essa falta de contato com o mundo externo que o conduziu a mim. Ele ajudou Parmy Olson nas pesquisas para seu livro, e parece ávido por manter alguma forma de comunicação com o mundo externo. Na verdade, comunicação é, ao mesmo tempo, a sua especialidade e aquilo que o pôs em reclusão.

“Vivendo nas Shetlands, eu não compreendia o impacto daquilo que estávamos fazendo”, diz. “Não compreendia o impacto que aquilo tinha no mundo real. E agora que estou aqui em Spalding, depois de passar algum tempo em Londres, percebi que o mundo gira e que ficar escondido no quarto não é a melhor coisa”.

O que parece incrível, mesmo agora (e talvez especialmente para Jake) é como um adolescente ligeiramente problemático vivendo na ilhota de Yell, nas Shetlands –um dos lugares mais isolados do planeta– conseguiu se colocar no coração de um movimento político radical de alcance planetário.

Mas talvez seja exatamente este o ponto. Quando conversei com Gabriella Coleman em Edimburgo, ela havia visitado na noite anterior um de seus contatos que vive em uma região isolada nas montanhas escocesas. “Ele me fez faisão para o jantar”, contou. Olson, igualmente, percebeu que muitos dos contatos que fez viviam em “lugares bastante remotos”.

Enquanto morava nas Shetlands, a internet era tudo para Davis. Era o lugar em que fazia amigos e mantinha relacionamentos sociais. “É onde aprendi quase tudo que sei. O que mais me faz falta é a Wikipédia. Na escola, eles ensinavam tricô. Eu sou bom nisso, na verdade”. Davis teve uma infância algo difícil, e isso (combinado às lições de tricô) o fez deixar a escola aos 13 anos, pouco depois que seu pai adotivo morreu em um acidente.

O que surpreende, inicialmente, é que ele não esteja tão infeliz por ter sido apanhado, ou com a perspectiva de passar alguns anos na prisão. “As pessoas dizem que a prisão é ruim, mas vivi em meu quarto com um computador durante anos. Não vai ser tão ruim assim. Quero cumprir minha sentença e concluir a minha educação por lá [na cadeia]. Quero uma educação realmente boa, e ler muitos livros”, disse Davis.

Isso se ele não for extraditado –porque também é alvo de acusações nos Estados Unidos, onde seus colegas hackers encaram sentenças de prisão de até 20 anos. Em contraste, na Irlanda não foram apresentadas acusações contra os hackers detidos. O Anonymous pode ser um fenômeno internacional, mas até agora não existe consenso sobre como policiar a internet.

INTELIGÊNCIA E ESPERTEZA

O quer fica imediatamente aparente sobre Davis (e muitas das pessoas envolvidas com o Anonymous) é sua enorme inteligência e esperteza, e o fato de que a internet é o veículo que elas encontraram para expressar seu intelecto –um veículo que, de alguma forma, eles não foram capazes de encontrar na vida real. “Não estamos falando de pessoas normais que se viram apanhadas em circunstâncias incomuns”, diz Parmy Olson. “São pessoas extraordinárias, vivendo circunstâncias extraordinárias”.

O que me parece mais interessante quanto a Davis é o completo fracasso do sistema educacional em explorar seu talento. O sistema não identificou ou fomentou esse talento de maneira alguma. “Não tenho qualificação alguma”, ele me disse a certa altura, com um ar desanimado.

Davis ganhou proeminência no Anonymous e no LulzSec não porque fosse um hacker de grande habilidade –não o era; seu conhecimento técnico é limitado -, mas sim porque é um redator e comunicado naturalmente talentoso. Entre outras coisas, ele controlava a conta do LulzSec no Twitter, com a qual realizava uma sucessão de pronunciamentos brincalhões, o último dos quais com ar profético: “Não se pode prender uma ideia”, ele escreveu. O que talvez seja verdade, mas cerca de um mês depois uma equipe de policiais invadiu sua casa e o transportou a Londres, uma cidade que ele não conhecia, em voo fretado. “Foi como viajar ao futuro, ou algo assim”, disse Davis.

  Mas não se pode prender uma ideia. E ainda que o impacto do Anonymous talvez tenha sido exagerado (especialmente pelo próprio grupo), ele é acima de tudo a expressão de uma ideia radical: a de que a internet pode permitir ações de massa, participativas e possivelmente ilegais, de uma forma que o mundo até agora desconhecia. Ações que não podem ser controladas por governos ou por agências internacionais, e que são decididas pela horda, implementadas pela horda e policiadas pela horda.

De acordo com Parmy Olson, a “hivemind” [mente de colmeia, em tradução livre], ou conseguir que as pessoas “acreditem no poder” da hivemind, talvez seja a maior realização do Anonymous. Não existe organização central (ainda que haja organizadores) e tampouco membros oficiais. De muitas maneiras, o grupo se assemelha à Al Qaeda, outra organização que ganhou proeminência nos últimos anos. Se você acredita no Anonymous e se declara parte do Anonymous, você é parte do Anonymous.

VILÃ PERFEITA

O movimento surgiu aparentemente do nada, em 2008. Naquele período, Gabriella Coleman estava estudando a comunidade Open Source (uma rede de programadores que acreditam em –e desenvolvem– software de fonte aberta para distribuição gratuita), e trabalhava na Universidade de Alberta, que por acaso contava com o maior arquivo mundial sobre a cientologia.

Ela observou o que aconteceu quando um vídeo de Tom Cruise sendo entrevistado sobre a cientologia surgiu na internet. Um grupo de hackers começou a “trolar” (zombar, ironizar) a igreja da Cientologia. Para muita gente, o vídeo –que foi gravado para fins internos de relações públicas da igreja– era provocação suficiente: Cruise parece um completo maníaco religioso, essencialmente maluco. Mas as coisas ganharam dimensões ainda maiores. A igreja começou a fazer ameaças judiciais contra o site que hospedava o vídeo, e foi essa tentativa de policiar a internet que levou certas pessoas a se levantarem em sua defesa.

“O que percebi”, diz Coleman, “é que a igreja da Cientologia serviu como perfeita vilã; era o maior pesadelo de um nerd, porque é uma religião de ciência e tecnologia, mas a tecnologia não funciona e a ciência é falsa. E é uma religião com forte sentimento de propriedade: exerce controle agressivo sobre marcas registradas e direitos autorais, de modo que os hackers a viram como parecida com eles, talvez, mas na forma de um gêmeo malévolo”.

E ao fazê-lo perceberam que dispunham de um poder que até então havia passado despercebido: a força dos números. Em lugar de simplesmente realizar protestos on-line, eles organizaram um dia mundial de protesto. E em 10 de fevereiro de 2008, 7.000 pessoas participaram, em 127 cidades do planeta. Ainda que elas não soubessem disso, um movimento político estava surgindo. “Somos o Anonymous”, um dos panfletos do evento anunciava. “Somos legião. Não perdoamos. Não esqueçamos. Fiquem em guarda.”

Conversando com Coleman e Olson, imaginei que estava começando a compreender o que é o Anonymous, como ele se comporta, o que realizou. E em seguida passei a frequentar as salas de chat do Anonymous no IRC (Internet Relay Chart), e a chamada Deep Web (web profunda), uma área da rede que não fica aberta a buscas pelo Google, e percebi que não compreendia coisa alguma.

As pessoas pareciam estar conversando sobre bobagens aleatórias, usando siglas que eu não compreendia. Há gente entrando e saindo da sala a cada cinco segundos; os apelidos mudam. E há as gírias. Todos são “fags”; os novatos são “newfags”, e os veteranos são “oldfags”. Há também os fagfags (homossexuais) e os moralfags (as pessoas que tendem ao moralismo). Logo percebi que eu era uma newfag. Mas não consegui distinguir planos de conquistar o universo em meio a piadinhas casualmente misóginas e a brincadeiras sobre a Aids.

Só no canal destinado a repórteres conheci pessoas capazes de escrever sentenças ordenadas, em um idioma reconhecível como inglês. É lá que membros autosselecionados do Anonymous interagem com a imprensa e explicam os objetivos do grupo.

Um jovem de 17 anos que usa o apelido The Poet e me disse que seus pais são iranianos contou que se envolveu com o grupo devido à Operation Iran, ou OpIran, a campanha do Anonymous para ajudar ativistas iranianos depois da reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2009. Ele queria sentir que estava fazendo alguma coisa para ajudar os ativistas de seu país.

The Poet contou que ainda é estudante e que ao encontrar o fórum conhecia tanto de computação quanto eu (ou seja, não muito), mas que agora dedica cinco ou mais horas diárias a isso. Conversamos bastante e ele me contou que, depois de ajudar a preparar releases de imprensa e comunicados, e tendo adquirido interesse por assuntos internacionais, está pensando em uma carreira como diplomata. Ainda que anunciar essa intenção no Anonymous não seja o tipo de coisa que vá beneficiar seu currículo no futuro, permitam-me acrescentar.

Nossas conversas aconteciam de madrugada, por volta da uma da manhã no horário britânico, e é evidente ele vive em alguma parte da Europa. “Vá dormir”, eu vivia dizendo. E me senti aliviada quando ele contou que não tinha participado de nenhuma atividade ilegal. Usando o protocolo cifrado de chat Jabber (que serve como primeiro passo para a comunicação com qualquer participante no mundo do Anonymous), eu já havia conversado com outro integrante adolescente do grupo que foi detido, mas não acusado.

Ele teve sorte. “Eu era imaturo, estúpido e irresponsável”, disse. “Causei muito estrago. Prejudiquei pessoas inocentes. Coloquei milhões de pessoas em risco de roubo de identidade ao divulgar suas senhas on-line. Isso não é justificável. De maneira alguma”.

Perguntei por que ele o havia feito.

“Naquele momento, parecia divertido”, foi a resposta.

DIVERSÃO

A diversão é a base de todo o movimento. “Trolar”. O agito. Brincar. Mentir, manipular e iludir outros internautas. Transformar tudo em piada. Davis suspeita que seja esse o motivo para o sucesso do movimento no Reino Unido. “O humor do Anonymous é negro, irônico e muito semelhante ao humor britânico”, ele afirma. O termo “lulz” vem de “LOLs”, laughing out loud (rindo alto), e não “lots of love” [muito amor], como imaginava o primeiro-ministro britânico David Cameron ao incluir a expressão no final de uma mensagem de texto a Rebekah Brooks.

Tudo gira em torno do lulz. No 4chan, um “fórum de imagens” (parecido com um fórum de chat, mas destinado inicialmente a fotos compartilhadas, cujo fórum /b/, para assuntos aleatórios, gerou a ideia do Anonymous), tudo é permitido, desde que não seja levado a sério. O 4chan é a origem de centenas de memes e vídeos virais na internet, muitos dos quais mais tarde encontram espaço também na mídia mais convencional.

É fácil desenvolver paranoia ao pesquisar para um artigo sobre o Anonymous. Coisas terríveis aconteceram a pessoas que se meteram com o grupo. A primeira ação coletiva do LulzSec foi contra Aaron Barr, presidente-executivo de uma companhia de segurança na internet, a HBGary, que alegou ter penetrado o movimento e identificado seus principais líderes.

Para resumir uma história longa, não, não os havia identificado. O LulzSec decifrou a senha de e-mail de Barr, obteve acesso a 40 mil de suas mensagens e as divulgou em um torrent on-line aberto a todos os interessados em lê-las.

Pouco depois que comecei a conversar nos chats do Anonymous, meu computador ficou mais lento. Meu celular teve problemas. Passei a acordar no meio da noite, com sonhos paranoicos. Quinn Norton, repórter da revista “Wired”, me disse que no grupo existe uma forte cultura de evitar ataques à imprensa. Ainda assim, ela suspeita que possa “existir um arquivo com os meus documentos em algum lugar, mas eles não estão fazendo nada de ruim com eles”. A principal coisa a considerar ao escrever sobre o grupo, é “não ser babaca”, segundo ela.

Falei a Davis sobre minha paranoia. “Sinto a mesma coisa a cada dia”, disse. “Toda manhã eu passava uma hora fazendo buscas e usando scripts para garantir que não havia nada de errado”. Mas no caso dele, ao menos, tudo se resume ao velho ditado: não é porque você é paranoico que não há ninguém te perseguindo.

Quando Sabu, o membro do Anonymous que se tornou informante, foi interceptado pelo FBI, ele ficou 24 horas sem acesso à internet, e quando retornou a história que contou não parecia muito convincente. “Nós suspeitamos muito dele”, diz Davis. “Mas fui burro e não fiz nada a respeito. A ideia de que havia agentes federais norte-americanos tentando me capturar parecia coisa de cinema. E sou das ilhas Shetland. O FBI não tinha como usar um dos meus amigos para me espionar. Isso acontece em filmes de ação, não na vida real. Mas na verdade foi exatamente o que aconteceu”.

Para Gabriella Coleman, as coisas foram ainda mais estranhas, de certa maneira. Ela havia se encontrado com Sabu em Nova York antes das detenções, e percebeu imediatamente que ele devia estar prestando informações ao FBI. “Soube na hora”, diz. “Não havia maneira, enquanto ele ainda era o hacker mais procurado mundo, de ele querer se encontrar comigo, a não ser que já tivesse sido detido. Eu sabia que ele tinha sido preso. Mas evidentemente não podia contar a ninguém. O que foi realmente difícil”.

Como antropóloga que pesquisava o Anonymous, havia momentos, diz Coleman, em que ela se sentia mistura de “detetive e sacerdote”. Ela acompanhou a evolução do grupo desde o levante contra a cientologia, e estava on-line, nas salas de chat, no momento em que ele conquistou espaço na grande mídia: o caso WikiLeaks.

Julian Assange tinha acabado de divulgar uma imensa coleção de cabogramas diplomáticos dos EUA, o PayPal havia anunciado que não mais aceitaria doações em nome do WikiLeaks, e a internet estava furiosa. “Tínhamos 7.000 pessoas ao dia nos canais [salas de chat], quando usualmente o total não passa de mil”, diz Coleman. “Mais de 35 mil pessoas baixaram o software”.

“O software” é algo conhecido como canhão iônico de órbita baixa (LOIC), e com ele bastam alguns cliques do mouse para se tornar hacker, ou ao menos para atacar um site. Computadores de todo o mundo começaram a enviar pacotes de dados aos sites do PayPal e Visa, sobrecarregando os servidores com ataque DDoS (ataque distribuído de negação de serviço).

Em seu livro, Olson explica o que de fato aconteceu. Os sites do PayPal e Visa foram atacados com sucesso, mas os principais perpetradores não eram parte da “hive”; o poder de fogo mais pesado foi fornecido por duas pessoas que controlavam “botnets”, redes ilegais de computadores infectados. Olson sugere que a ideia do “hivemind” foi um truque de relações públicas.

ISCA

Um mito de relações públicas perigoso. Poucos meses depois do ataque, o FBI começou a deter pessoas –pessoas que haviam sido atraídas pelo Anonymous por conta de sua retórica e ou não perceberam que o que estavam fazendo era ilegal, ou dispunham do conhecimento técnico necessário a encobrir seus traços ou simplesmente não se preocupavam.

Eram estudantes, profissionais liberais de classe média… O Anonymous não se enquadrava ao estereótipo de “moleques que moram no porão da casa da mãe”, nas palavras de Coleman. “Haverá um ou dois membros do grupo no departamento de tecnologia de sua empresa”.

Mas se você considerar, por exemplo, a deslumbrante natureza visual de alguns dos designs do Anonymous, isso não seria causa de surpresa. Outros exemplos seriam o brilhantismo das operações do grupo no Egito e na Tunísia, e mais recentemente na Síria. Em seus momentos mais fortes e convincentes, o movimento saiu em defesa da internet.

O Anonymous começou a divulgar o que estava acontecendo na Tunísia, por exemplo, depois que o governo do país proibiu o acesso ao Wikileaks, no final de 2010; só mais tarde o restante da imprensa mundial começou a dedicar atenção àquilo que viria a se tornar a Primavera Árabe.

É “arte política em forma de espetáculo”, de acordo com Coleman. E se opõe a quase tudo que a sociedade convencional preza. Fama individual não é um objetivo e nem é bem-vista. Os membros do Anonymous que atraem atenção para suas pessoas ou alegam estar falando pelo movimento sofrem ostracismo.

“É praticamente o oposto de tudo que a mídia social representa”, diz Coleman. “Eles dramatizam a importância do anonimato e da privacidade em uma era na qual as duas coisas sofrem rápida erosão. São o anti-Facebook”.

Ser anônimo era a fonte do poder de Davis; ninguém sabia que ele era só um garoto. Isso e o conceito de “hivemind”. “Todo mundo sabe, secretamente, que cada um dos demais membros do Anonymous é um cara solitário e nerd”, diz Davis. “Mas nós ignorávamos o fato, e jogávamos o jogo do Anon, no qual éramos todos anônimos e invencíveis”.

E eram em sua maioria homens. O Anonymous é um movimento muito masculino. Em “Rules of the Internet”, um texto surgido do 4chan, a regra 30 dispõe que “não existem garotas na internet”. A regra anterior dispõe que “todas as garotas são homens, e todas as crianças são agentes infiltrados do FBI”, o que contém certa dose de verdade.

Há momentos em que o Anonymous parece um ninho de adolescentes meio ingênuos que certamente terminarão encrencados. Adolescentes sempre gostaram de aprontar, e agora têm a oportunidade de fazê-lo em cenário mundial, com apenas alguns cliques de mouse que podem lhes valer 20 anos de prisão.

Uma das figuras responsáveis por uma das mais populares contas do Anonymous no Twitter disse a Coleman que ele “é membro do 1%”. “Passa férias em Paris o tempo todo”, ela conta. “É um engenheiro que está muito, muito bem de vida e exerce grande cuidado em proteger sua identidade”.

No chat para repórteres conversei por algum tempo com um membro do Anonymous chamado “nsh”, que me disse que estamos testemunhando “a emergência de uma nova espécie de identidade, e com ela a de uma nova espécie de política da identidade. A política tradicional se atém a grupos demográficos fixos e requer que os participantes tenham continuidade de identidade e possam ser localizados geograficamente. São coisas dispensáveis on-line e foram dispensadas, com grande efeito”.

Nsh é um tanto verboso, e gosta de analogias históricas. Os ataques aleatórios contra sites são na verdade a versão contemporânea de pichar um lema político em uma parede, ele diz. Uma espécie de vandalismo on-line. “Mas os vândalos se deram mal, historicamente, não é?”, ele escreve.

Nsh não me contou nada pessoal a seu respeito, mas meu palpite é que seja britânico e estude em uma de nossas melhores universidades. Não deve ser por coincidência que Oxford e Cambridge foram alvo da operação “Free Assange”, a atual campanha do Anonymous. Se o objetivo é pichar um muro, melhor fazê-lo onde seus colegas possam ler o que escreveu.

Conversar com nsh me divertiu, mas a diferença geracional é perceptível. Quando ele faz uma piada, sinaliza com um emoticon. Quando eu faço uma piada, ele escreve “lol”. Tenho de responder com “ha ha” ou de outra forma, argumento “eu pareceria Ali G [personagem humorístico do comediante britânico Sacha Baron Cohen]. Ou uma avó tentando fazer um rap”.

Não existe uma “avaliação moral clara” que se possa fazer sobre o Anonymous, na opinião de Coleman. “Mas se você ferir a internet, cuidado: ela pode feri-lo em reação”.

Em Spalding, Jake Davis não tem uma avaliação melhor a oferecer sobre o movimento, ainda que tenha sido sua voz por algum tempo. Os advogados o fizeram ler centenas de páginas de suas conversas nas salas de chat, como parte de seu caso. “E eu fico pensando quem era aquele tal de Topiary”, ele diz. “Quanta besteira ele dizia. Tentamos fazer algo divertido, algo político, algo ideológico, mas resultou só em estrago geral”.

Terminei a pesquisa mais confusa sobre o Anonymous do que estava no começo. Quando visitei o pastebin.com, o site em que os hackers divulgam os dados recentemente obtidos por vias ilícitas, e mostram os resultados de suas operações recentes de ataque e invasão a sites, os alvos pareciam aleatórios, perversos.

“Cadwal, há sempre alguma loucura rolando no Anonymous”, me disse um membro do movimento chamado KnowledgeUS. “É difícil até para nós saber o que está acontecendo no Anonymous”.

Isso me confortou um pouco. “Ha ha”, respondi. O Anonymous é algo que pertence a uma nova geração. É a internet deles. O Anonymous deles. Na minha idade, acho que estou velha demais para os lulz.