Cultura hacker x corrupção

Segundo episódio de “O Mundo Amanhã” por Julian Assange
10 de outubro de 2012
Novo hino nacional: Ordem pra qual progresso?
11 de outubro de 2012

Cultura hacker x corrupção

Brasília sediará entre 7 e 10 de novembro a 15ª Conferência Internacional Anticorrupção, que pela primeira vez acontece no Brasil.

Chefes de estado, sociedade civil e representantes dos setores público e privado estarão reunidos em busca de fórmulas de combate à corrupção com ajuda da internet, por meio da cultura hacker.

Em meio às atividades, o evento chama a atenção pelo “Hackaton”, concurso que premiará as melhores iniciativas tecnológicas para solucionar problemas ligados à corrupção. O dono da melhor ideia levará para casa R$ 15 mil para viabilizar o projeto e outros participantes podem ser convidados a assistir a feira. (Saiba como concorrer)

A Conferência Internacional é representada pela AMARRIBO Brasil, organização que desde 1999 se empenha na mobilização social contra ilegalidades políticas. Criada em Ribeirão Bonito, interior de São Paulo, por simpatizantes à causa, a entidade viu no descaso das autoridades a oportunidade para empreender projetos sociais e combater a corrupção local.

O espírito intensificou-se e os resultados apareceram. Com investigações, provas e denúncias de atos ilícitos, pelas mãos da Amarribo dois prefeitos e diversos vereadores foram afastados de seus cargos nos últimos anos. A campanha resultou também na publicação do livro “O Combate à Corrupção nas Prefeituras do Brasil”, que percorreu várias cidades para estimular discussões sobre o controle e aplicação do dinheiro público. Hoje, aos 13 anos, a Amarribo conta com uma rede de 200 organizações afiliadas.

Nicole Verillo, porta-voz da organização, falou ao Olhar Digital. Na entrevista abaixo ela comenta os avanços da mobilização social, a importância da “webcidadania”, conceito que vem caindo no gosto do brasileiro, e diz que o governo federal tem cooperado – e muito – com a ampliação do acesso às informações públicas.

OD: Como a cultura hacker ajuda a combater a corrupção de forma concreta e objetiva?

NV: A cultura hacker tem extrema importância na mobilização e no combate à corrupção ao contribuir para verificação dos sistemas de segurança de informações e dados, e também para a mobilização e participação de cidadãos pela internet. Muitas vezes o governo recorre a hackers para testar a segurança do sistema eleitoral e outros, visando garantir que não hajam fraudes.

OD: O que a Conferência Internacional conquistou nestes anos todos?

NV: Cada conferência fornece uma oportunidade para destacar os avanços e desafios na gestão do país de acolhimento e combate à corrupção, com outras importantes questões econômicas e políticas de grande importância diplomática para o país anfitrião e de sua região.

As conferências influenciaram na agenda política e econômica global ao longo dos anos. A Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção e a Convenção da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também tiveram suas primeiras atividades por conta da IACC. Foi a IACC 2008 que contou com os primeiros debates sobre governança, transparência e prestação de contas na mitigação das mudanças climáticas e estratégias de adaptação, entre outros.

Além disso, a mobilização para a causa é real. A conferência mobiliza o governo local junto aos cidadãos e demais setores da sociedade. Busca mobilizar jovens e chamar atenção para a causa da corrupção, trazer interações e exemplos de mudanças reais feitas pelo mundo para que sejam disseminadas.

OD: O trabalho de vocês é a prova de que é possível tornar mais confiável e transparente o cenário político brasileiro?

NV: O resultado do nosso trabalho é essa prova. Ver cidadãos se mobilizando em suas cidades, fiscalizando e cassando corruptos é a maior prova de que um país mais justo, ético e transparente é possível por meio das diferentes formas de participação cidadã, presencial ou pela web. Estamos punindo cada vez mais os corruptos. Avanços na legislação, como a Lei da Ficha Limpa, a Lei de Compra de Votos e a Lei de Acesso à Informação, são consolidados pelo trabalho de cidadãos e organizações sociais. O brasileiro está se mobilizando cada vez mais para o combate à corrupção.

OD: O primeiro turno das eleições movimentou as redes sociais. A internet é a saída para fazer o brasileiro tomar gosto pela política?

NV: A internet é uma das vias fundamentais para isso. Vemos cada vez mais ferramentas de “webcidadania” que contribuem não só para o eleitor se mobilizar e tomar gosto pela causa, mas também para fiscalizar, reclamar e construir junto com outros cidadãos um novo cenário para sua cidade, estado e país. Estamos em um país mega conectado, um dos que mais possui usuários em redes sociais. Isso deve ser muito bem utilizado.

OD: Há parcerias com outros grupos hackers no Brasil?

NV: A iniciativa do Hackaton foi pensada em parceira com a Transparência Hacker, que tem um olhar para as questões de cidadania e combate à corrupção e iniciativas interessantíssimas, como o Ônibus Hacker, que roda cidades brasileiras para divulgar ações políticas.

OD: Na semana passada um grupo derrubou o site da Campus Party Brasil em protesto ao preço dos ingressos. Vocês são favoráveis a ações como esta?

NV: Como a Campus Party é uma iniciativa privada, com interesses e posições que desconhecemos, prefiro não comentar este assunto. De todo modo, em relação ao Governo, somos a favor de parcerias na qual hackers são desafiados a derrubar sites e sistemas, para que o Governo possa corrigir erros, identificar falhas etc.

OD: A Controladoria Geral da União apoia o Hackaton. O governo tem cooperado com a abertura do acesso às informações públicas?

NV: O governo tem cooperado e muito. A CGU já recebeu diversos pedidos desde que a Lei de Acesso à Informação começou a valer. A Lei regulamenta o direito de acesso à informação pelo cidadão, que não precisa mais justificar um pedido de informação. O cidadão tem direito de receber a informação e o funcionário público que não fornecê-la pode ser punido, inclusive por improbidade administrativa.